Embalagem da rapadura ilustrada com praias do Ceará. Foto de Marina Valente
Cooperativismo
Engenho, coqueiral e fé: A construção econômica cooperada da rapadura do Trairi
Padre espanhol, em 1973, deu origem à cooperativa que transformou a cana e o coco local em oportunidade
Quem visita os centros de artesanato e mercados do Ceará facilmente encontra embalagens estampadas com fotos de praias e que carregam o selo de ser 100% rapadura. Nada de açúcar refinado acrescentado no produto. É o que alega com muito orgulho Marcelo Barbosa, cooperado e ex-presidente da Cooperativa Agropecuária do Trairi (Cooperai).
Este é o grande diferencial da rapadura que, segundo Barbosa, é disputada como a melhor do Ceará. “A gente está tentando ter um selo de origem, porque todo mundo chega no Mercado São Sebastião [de Fortaleza, Ceará] e pede a rapadura do Trairi, mas tem gente que vende dizendo que é, mas não é, você sabe a diferença”.
Dentre tantos outros subprodutos da cana-de-açúcar, a rapadura está na memória alimentar e afetiva de muitas gerações de cearenses.
A fama da rapadura trairiense, sua profunda relação com a construção econômica de um município e a forma como ela abriu espaço para outras cadeias produtivas é a história que vamos contar nesta reportagem.

Processo de formação da barra de rapadura. Foto: Arquivo Cooperai
O MÉDICO E O PADRE
“Tudo começou com a fé e a vontade de mudar a realidade”, lembra Barbosa, ao falar do início do processo cooperativista no município de Trairi (CE) nos anos 70.
Na época, segundo o entrevistado, Trairi era uma pequena cidade com forte desigualdade e assistencialismo, com cerca de 24 mil habitantes. Com poucos agentes de autoridade, eram apenas um prefeito, um pároco e cinco vereadores.
A maioria do povo vivia com dificuldades de plantios modestos de cana-de-açúcar localizados em áreas de levadas, com a média de 10 hectares. Por outro lado, plantios maiores, de 25 hectares ou mais, estavam nas mãos de coronéis.
Um número bem diferente das áreas de plantio atuais, que, segundo Barbosa, é de cerca de 40 hectares, uma queda devido aos processos econômicos do país e do município, mas também relacionada à ascensão de uma outra atividade econômica que ocupa cerca de 8 mil hectares por produtor: o cultivo de coqueiros.
A fé à qual Barbosa se refere tem nome e cargo eclesiástico. Padre Tomás Feliu Amengual, jesuíta espanhol, chega à região na década de 1970 e encontra uma economia voltada para a venda de coco in natura, castanha de caju, farinha e rapadura a atravessadores, que reduzem significativamente o preço pago aos produtores, em relações que, por muitos anos, perduraram como dependência e até compadrio.
As primeiras reuniões, que formam o embrião da cooperativa, acontecem embaixo de cajueiros, com cadernos simples e café forte. “Não se falava em cooperativa ainda. Falava-se em união (...) Cada um trazia um saco de coco, uma lata de melado, e a conversa girava em torno de como vender melhor”, recorda Francisco Veras de Paiva (Chico Abel), atual presidente da Cooperai.
Para “mover as montanhas”, foi preciso que um filho da terra, residente em São Paulo, que tinha por hábito visitar as festas da padroeira, investisse na ideia ao lado do padre. Dr. Celso Barroso contribuiria com Cr$ 300 milhões de cruzeiros para a compra de 70 cotas-partes de produtores e aquisição do terreno para construção da sede da Cooperai.
A cooperativa é, então, oficialmente fundada em 1973. O primeiro galpão da cooperativa foi erguido em regime de mutirão. Cada cooperado trouxe um pouco: madeira, tijolo, um dia de trabalho. “Ninguém aqui tinha dinheiro, mas todo mundo tinha vontade”, recorda Barbosa.

Fotos de Padre Tomás e Dr. Celso expostas na entrada da cooperativa. Foto: Esdras Gomes
CRIANÇAS, BOIS E RAPADURA
“Eu vou dizer para você, porque eu sou fazedor de rapadura, de engenho. O meu avô também já era dono de engenho, veio para o meu pai. Então, desde criança a gente está nesse meio de engenho, da produção de rapadura. A gente tem vivência dentro do engenho desde criança”, explica Barbosa.
Ainda segundo o ex-presidente, a memória do engenho era a da noite. Os engenhos começavam a funcionar à meia-noite com o fogo. A primeira “taxada” saía às duas horas da manhã.
“E daí, quando era cinco horas, cinco e meia, nós, irmãs e dois irmãos, fomos para lá para ajudar no engenho. E a nossa ajuda aqui era, nesse momento, na mulandeira, que eram os bois que saíam puxando para fazer a moenda, para fazer a garapa. E tem essa memória muito forte de degustação: a garapa, mel, pão, tapioca”, relembra Barbosa sobre a infância nos 10 hectares de seu pai.
Ainda segundo o entrevistado, as famílias disputavam status entre si. “Tinham irmãos que tinham engenho, aí o outro irmão tinha outro, e o outro, mais outro. Por que você poderia não ter um só? Porque ele se tornaria importante na cidade”.
“A gente tem essa força ainda de muitas famílias que entraram com engenho. Meus primos, meus colegas, todos eles, os pais deles também tinham engenho. Por exemplo, quem tinha um engenho nos anos 60, 70, 80 era alguém abastado”, explica Barbosa sobre a importância econômica dos engenhos no Trairi.

Marcelo Barbosa e os produtos da Cooperai à base de coco, caju e cana. Foto: Marina Valente
A disputa entre familiares fez a qualidade da rapadura crescer, mas, ao mesmo tempo, não facilitou o crescimento de forma igualitária em um município onde muitos viviam de doações.
“A questão do cooperativismo, nem de longe eles se imaginavam em cooperativa. Nessa época, não”, informa Barbosa.
Dessa forma, a chegada do padre espanhol, nos anos 70, para fomentar uma ideia a partir das comunidades eclesiais rurais se torna fundamental para o início de uma produção agrícola organizada, que protegeria Trairi diante de crises de produção que viriam a acontecer nos anos seguintes.
O CICLO DO COCO E O FILHO DO PESCADOR
As crises de produção vieram: seca, pragas, falta de crédito, desânimo. “Tivemos épocas em que parecia que o engenho ia parar de vez”, confessa Barbosa. “Mas a fé segurou a cooperativa. O padre Tomás já havia partido, mas sua mensagem seguia viva: quando dizia que um só coco não faz sombra, mas um coqueiral faz floresta.”
Foi assim que uma cultura produtiva, tão antiga quanto a da cana, entra em cena como uma salvação. “Antes o coco apodrecia. Hoje ele sustenta o povo”, resume Chico Abel. O atual presidente da cooperativa não possui suas memórias de infância dos engenhos, mas do mar e dos coqueirais.

Chico Abel ao lado dos produtos da Cooperai, com jovens aprendizes e Marcelo ao fundo. Foto: Esdras Gomes
É possível ver o orgulho do presidente ao explicar que foi possível perceber que o coco, antes vendido in natura, podia reerguer a economia ao ser tratado para gerar derivados de maior valor, como o óleo de coco, leite de coco e a fibra.
Além disso, a tradição de misturar a rapadura com o coco se fortifica e se torna uma das marcas registradas da região.

Produtos da Cooperai em exposição. Foto: Marina Valente
POLÍTICA E INVESTIMENTO
Perguntados sobre a ocupação de espaços políticos tradicionais na cidade como uma forma de defender os interesses da cooperativa, os entrevistados lembram que, na época de Virgílio Távora, a cooperativa viu um de seus gerentes concorrer por iniciativa própria e ser golpeado ao tentar ocupar os espaços da política tradicional.
Eles também afirmam que houve momentos em que as crises foram extremamente prejudiciais e levaram a cooperativa a apelar ao banco por soluções.
Conseguiram e hoje buscam defender a ideia de que o voto é um direito pessoal, mas alertam os cooperados sobre a importância de votar naqueles que defendam pautas favoráveis ao cooperativismo e às atividades econômicas que desempenham.
“É ter incentivo para vocês prosperarem”, justifica Barbosa sobre a orientação que faz sentido na medida em que muitos programas federais, “de 20 anos para cá”, comportam o segmento cooperativista que busca se inscrever e se tornar apto a ganhar os benefícios de apoio e investimento.
“Mas a nossa lógica é que a gente pode ser forte por nós mesmos. A partir do momento que a cooperativa está forte, eu acho que os programas começam a chegar para nós mesmos”, completa o ex-presidente.
Ainda segundo o cooperado, a Cooperai passou a buscar conhecimento e organização para conquistar e participar de programas governamentais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
UMA REDE MAIOR: A INTERCOOPERAÇÃO COMO FORTALECIMENTO

Fachada do prédio da cooperativa. Foto: Marina Valente
No final da década de 90, um processo de reinvenção teve início com a chegada de Ivani Rabelo, sociólogo e estudioso das tradições locais, que passou a coordenar os projetos sociais da cooperativa e convencer mais pessoas da importância do cooperativismo.
Com ele, a cooperativa descobriu que era preciso se capacitar e se conectar. Fortaleceu a intercooperação e, desde 2017, passou a atuar em parceria com outras cooperativas do Ceará, como a Coopafesp, Cosena, Coopnorte e a Casa do Mel de Monsenhor Tabosa, resolvendo assim problemáticas para garantir o volume e a diversidade de produtos exigidos pelos editais públicos de alimentação escolar.
“Se não fosse essa rede de intercooperação, a gente não teria como participar dos programas do PAA e do PNAE”, explica Marcelo Barbosa. “O município pede laranja, abacate, batata, pimentão, tomate... e a gente não produz tudo isso. Então, cooperamos com quem produz”, explica.
Essa diversidade de produtos, inclusive, abriu as portas para a produção mais variada da própria cooperativa, que hoje tem, por exemplo, o bolo e a tapioca como importantes produtos econômicos vendidos para os governos municipal e estadual, que os utilizam na merenda escolar de 16 mil alunos da rede municipal e estadual. “A cooperativa participa de, no mínimo, 40% da merenda escolar do município. E isso semanalmente, todo mês e todo ano”, orgulha-se Barbosa.
As trocas vão muito além dos contratos: há parcerias técnicas, capacitações conjuntas e até trocas de insumos. “É uma corrente do bem. A gente entrega coco e rapadura, recebe frutas, verduras, mel. Todo mundo cresce junto”, completa o sociólogo Ivani.
Outro símbolo dessa identidade coletiva, marcado nas embalagens, é o carimbo Somos Coop, uma iniciativa do Sistema OCB nacional (Organização das Cooperativas Brasileiras). “É o nosso brasão”, define Barbosa. “Quando alguém vê o selo, sabe que o produto carrega os valores do cooperativismo nacional.”
Com o tempo, vieram também as capacitações via Sescoop (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo) e o apoio do Sistema OCB Ceará (Organização das Cooperativas Brasileiras - Ceará), por meio de cursos de contabilidade, gestão e comercialização, que transformaram o grupo em referência para toda a região.
A cooperativa trairiense também participa de feiras e eventos cooperativistas agropecuários e pretende estabelecer uma feira no galpão de sua sede para a venda dos produtos, tendo, inclusive, realizado algumas experiências.
A APOSTA DE FUTURO

Entrevistados e jovens aprendizes. Foto: Marina Valente
Com a entrada dos anos 2000 e o conhecimento de novos parceiros, a cooperativa aprendeu que era preciso cuidar do solo para aumentar a produtividade e a doçura da cana-de-açúcar, entender o manejo da água e investir em tecnologia para, por exemplo, congelar a amêndoa do coco, prolongando sua validade.
Além disso, para prosperar só seria possível com duas ações: reduzir atravessadores e agregar valor aos produtos. “A gente está plantando, processando e agregando valor para vender no mercado”, explicou Barbosa.
Assim, aos 50 anos, uma cooperativa do Trairi sonha em implantar cinco indústrias comunitárias de rapadura, melaço, açúcar mascavo, derivados do coco e uma unidade de mini-processamento de frutas, verduras e legumes agroecológicos.
E, na construção desse futuro, novas lideranças ganham força, rompendo preconceitos que não cabem mais no mundo e na produção agrícola. O Comitê de Mulheres, criado nos últimos anos, transformou o cotidiano. Elas participam de capacitações, rodas de conversa, oficinas de liderança e feiras próprias. Das 147 famílias associadas, quase metade tem mulheres na linha de frente.
A juventude, herdeira de uma tradição, também começa a acompanhar os passos de seus pais, mães e tios. O grupo de jovens cooperados, criado há pouco tempo, vem sendo preparado para garantir a sucessão e a continuidade do projeto coletivo. “Eles trazem tecnologia das universidades, computador para a produção, o drone (...) o jovem volta se tiver emprego”, explica Ivani.
E assim, toda uma nova geração de cooperados se torna herdeira de uma fé inabalável de fazer crescer o Trairi.
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