Foto de Coopsertão/Reprodução

Cooperativismo

Valdirene dos Santos, presidente da Cooperativa Ser do Sertão (Coopsertão), é a nossa entrevistada

Perfil

Meu nome é Valdirene dos Santos de Oliveira. Nasci em Cabaceiras do Paraguaçu, fui criada na Vila de Santana e há cerca de 20 anos construí minha vida em Pintadas (Bahia), lugar que me acolheu e onde aprendi, na prática, o significado de comunidade e cooperação. Sou casada e mãe de dois filhos, Pedro Lucas e Luan Gabriel, que são parte da minha força diária e da minha motivação para seguir adiante.

Minha trajetória é marcada por desafios que me moldaram como uma mulher negra, independente, consciente da importância de ocupar e ser reconhecida em espaços que, muitas vezes, ainda são restritos para pessoas como eu.

Fui criada inicialmente por minha avó materna e, diante das dificuldades financeiras da família, vivi com minha madrinha em Feira de Santana. Foi lá que comecei cedo a conciliar estudo e trabalho em casas de família, enfrentando responsabilidades que exigiam maturidade e resistência. Ao mesmo tempo, a participação na igreja e nas Comunidades Eclesiais de Base me aproximou da organização comunitária, dos grupos de jovens, da catequese e de tantas ações coletivas que despertaram em mim o compromisso com o outro.

Entre os 14 e 16 anos, ingressei no convento das Irmãs Salvatorianas, onde concluí o ensino médio e realizei o curso técnico em enfermagem. Mais tarde, tornei-me missionária do Meio Popular do Nordeste, participando de missões, formações e capacitações em diversos estados, ampliando meu olhar sobre a realidade social e sobre o papel transformador da educação popular.

Também atuei no PSRI da Cáritas, representando Dom Itamar Vian e fortalecendo vínculos com instituições parceiras, sempre com o propósito de construir redes de apoio e desenvolvimento.

Em 2000, já formada como técnica em enfermagem, fui convidada a atuar em Pintadas, participando da implantação do Programa de Saúde da Família (PSF). Contribuir para estruturar esse serviço foi uma experiência marcante, pois me mostrou como políticas públicas bem construídas podem transformar vidas.

Ao longo dessa caminhada, ser mulher, negra e independente significou enfrentar muitas barreiras invisíveis. Precisei provar minha competência repetidas vezes, lidar com desconfianças e resistências, inclusive ao assumir posições de liderança, primeiro no Colégio Aterritorial da CIDJP e depois no cooperativismo.

No cooperativismo, compreendi que ele é muito mais do que um ideal bonito: é também gestão séria, responsabilidade e compromisso coletivo. Busquei estudar, me capacitar e entender profundamente esse modelo, que hoje considero uma das maiores ferramentas de transformação social no sertão.

Passei a liderar projetos locais e nacionais, atuando em programas como PRS Caatinga, Frig Bahia, SICOOB Sertão, além de iniciativas de assistência técnica e extensão rural, sempre priorizando a formação, o compartilhamento de conhecimento e o fortalecimento das pessoas.

O cooperativismo me ensinou que a liderança feminina exige coragem, preparo e compromisso com a equipe. Aprendi que juntas podemos transformar comunidades, criar novos paradigmas e garantir sustentabilidade para as próximas gerações.

Meu legado é a esperança: inspirar mulheres a reconhecerem seu valor, seu protagonismo e sua capacidade de liderar com firmeza e sensibilidade.

E às mulheres que chegam agora, deixo minha mensagem: sonhem, ocupem seus espaços e caminhem na cooperação, porque cada passo de uma mulher é também uma vitória coletiva.

Entrevista

1. Origem e propósito

Em 2008, a Coopsertão nasceu da união de mulheres agricultoras. Como você avalia esses 17 anos de história em termos de emancipação feminina e impacto comunitário?

Ao longo desses 17 anos, a cooperativa passou por altos e baixos, mas cada desafio trouxe aprendizados importantes. Fortalecemos nossa estrutura com base nas necessidades reais das mulheres agricultoras e desenvolvemos metodologias específicas para apoiar sua participação nas cadeias produtivas. É uma trajetória de crescimento e amadurecimento, sempre buscando compreender o que ainda falta para avançar.

2. Transição produtiva

A cooperativa passou de produtos artesanais a uma agroindústria moderna. Quais foram as principais dificuldades na profissionalização desse processo?

O maior desafio foi compreender o mercado e suas exigências, desde a qualidade do produto até a competitividade em igualdade com empresas privadas. Precisamos transformar a cooperativa de um modelo de subsistência para um negócio sustentável, sem perder nossa essência. Isso exigiu ampliação, adequação, inovação e uma gestão mais profissional, alinhando todas as etapas — da matéria-prima ao processamento e à comercialização.

3. Infraestrutura e sustentabilidade

Com a expansão da fábrica de polpas e a implantação de energia solar, quais transformações mais marcaram a vida das famílias cooperadas?

Ampliamos a absorção de matéria-prima oferecida por sócios, colaboradores e pela comunidade, gerando impacto econômico no município e em todo o território. A adoção da energia solar é um avanço importante, apesar dos desafios de legalização e integração com a rede. A redução dos custos é significativa, traz benefícios ambientais e ainda inspira produtores a adotarem energia solar em suas próprias casas.

4. Agroecologia em prática

Como as práticas agroflorestais e a agroecologia estão integradas ao cotidiano dos produtores? Você acredita que isso é diferencial para conquistar novos mercados?

O modelo de agrofloresta da cooperativa tem dois objetivos principais: tornar as unidades de produção financeiramente sustentáveis e ajudar os agricultores a conviverem com as mudanças climáticas sem perdas significativas. Utilizamos práticas como recuperação de áreas degradadas, plantio direto e tecnologias de baixo carbono, unindo gestão eficiente e preservação ambiental.

Sim, esse modelo é um diferencial competitivo, pois o mercado valoriza alimentos 100% naturais e saudáveis, e nós asseguramos qualidade e respeito ao meio ambiente em cada produto.

5. Fortalecimento institucional

A Coopsertão conquistou o Selo Lilás e criou um comitê de mulheres. Como essas ações contribuem para ampliar a participação feminina na cooperativa?

Criar estruturas voltadas para mulheres dentro da cooperativa é essencial, não apenas para atender metas ou conquistar prêmios, mas para garantir direitos, condições justas e igualdade de participação. Essas ações fortalecem a presença e a influência feminina, promovendo satisfação e valorização dentro da estrutura da cooperativa.

6. Rede e parcerias

Vocês se conectam com CDPAF, Capelinha e Unicafes. Como essas intercooperações potencializam a visibilidade e a comercialização dos produtos?

A Ser do Sertão desenvolve intercooperação com diversas cooperativas, o que fortalece a divulgação mútua dos produtos e possibilita trocas comerciais. Além disso, mantemos parcerias importantes com universidades e instituições de pesquisa que compartilham a mesma visão do cooperativismo baseado na agricultura familiar. Essas conexões ampliam nossa visibilidade e fortalecem o impacto da agricultura familiar.

7. Comunicação estratégica

Ao se tornar patrocinadora Ouro do Prêmio Coopere Mais de Inovação na Comunicação Cooperativista, como você vê o papel da comunicação na construção da imagem institucional da cooperativa?

A comunicação é fundamental para a cooperativa. Planejar sem incluí-la compromete toda a estrutura do cooperativismo. Ela está diretamente ligada à inovação e precisa estar presente em todas as etapas — do planejamento à execução — fortalecendo a imagem institucional e o desenvolvimento da cooperativa.

8. Desafios rumo ao futuro

Quais são os maiores desafios atuais e como pretendem enfrentá-los nos próximos anos em termos de produção, governança e impacto social?

Entre os principais desafios estão fortalecer a relação com o mercado para posicionar nossos produtos diferenciados e trazer temas globais para a cooperativa com ações concretas. Também enfrentamos o desafio da sucessão e da adoção de modelos de gestão inovadores, muitas vezes pouco compreendidos no cooperativismo.

Na produção, trabalhamos no desenvolvimento de novos produtos, com estudos de mercado e adequação às demandas atuais. Na gestão, buscamos incorporar novas tecnologias, incluindo inteligência artificial, sem perder de vista os pilares que sustentam uma indústria.

No impacto social, nosso desafio é comunicar e ampliar as ações realizadas, engajando colaboradores, estabelecendo parcerias com universidades e levando esses resultados para além da cooperativa.

9. Tecnologia e inovação

Há planos para adotar novas tecnologias e expandir para novos nichos de mercado? Como a inovação está inserida no plano de crescimento?

Sim, adotamos novas tecnologias e inovamos principalmente por meio do planejamento, de projetos desenvolvidos e da agroecologia implementada dentro da cooperativa. A inovação está presente como estratégia contínua de fortalecimento e adaptação às novas demandas.

10. Inspiração e legado

Que mensagem você gostaria de deixar para outras cooperativas que buscam empregar criatividade, sustentabilidade e comunicação para se fortalecerem?

Para cooperativas que já estão estruturadas, a evolução deve se apoiar em gestão, sustentabilidade e comunicação, pois não é possível crescer sem esses pilares. Para aquelas que ainda não iniciaram esse caminho, o conselho é começar o quanto antes. Entender o mercado global e planejar considerando essas três áreas é essencial para se manter competitivo e sustentável.


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