Biodiesel Desvendado – A Série

A piaçava mostra que o futuro da bioeconomia também nasce no campo

Durante muitos anos, quando se discutia inovação no Brasil, quase sempre o olhar se voltava para grandes centros urbanos, laboratórios ou indústrias de alta tecnologia. Pouca gente imaginava que comunidades rurais, apoiadas em conhecimentos transmitidos de geração em geração, também poderiam protagonizar soluções capazes de movimentar a economia e responder aos desafios da sustentabilidade.

No Baixo Sul da Bahia, essa realidade está diante dos nossos olhos.

A piaçava acompanha a história da região há décadas. Ela garante o sustento de milhares de famílias, movimenta a economia de diversos municípios e preserva um saber construído ao longo do tempo por homens e mulheres que aprenderam a conviver com a floresta, respeitando seus ciclos e fazendo do extrativismo uma atividade produtiva.

Quem conhece essa cadeia sabe que os desafios nunca estiveram apenas na produção. A maior dificuldade sempre foi ampliar as oportunidades de renda para quem vive do trabalho no campo. Durante muito tempo, boa parte do potencial econômico da piaçava permaneceu inexplorado. A fibra encontrava mercado consolidado, enquanto outros componentes da planta tinham pouca utilidade comercial.

Essa realidade começa a mudar.

O aproveitamento do coco da piaçava para a produção de biomassa destinada ao setor de biocombustíveis abre uma oportunidade que poucos imaginavam alguns anos atrás. Um material que antes tinha valor reduzido passa a integrar uma cadeia ligada à geração de energia renovável, ampliando a utilização da matéria-prima e criando uma nova fonte de receita para centenas de agricultores familiares.

Essa mudança produz efeitos que vão muito além da comercialização de um novo produto. Quando uma família consegue obter renda de diferentes partes da mesma cultura, sua atividade se torna menos vulnerável às oscilações do mercado. Há mais condições para planejar a produção, organizar investimentos e enfrentar períodos de instabilidade com maior segurança.

Essa é uma discussão que precisa ganhar espaço quando falamos de desenvolvimento rural. A permanência das famílias no campo depende de viabilidade econômica. Nenhuma tradição resiste por muito tempo quando deixa de oferecer perspectivas para quem vive dela.

É nesse ponto que o cooperativismo demonstra toda a sua importância.

A experiência ensina que pequenos produtores, isoladamente, encontram enormes dificuldades para negociar melhores preços, acessar novos compradores ou atender às exigências de grandes mercados. Quando se organizam em cooperativa, a realidade muda. A produção ganha escala, o poder de negociação aumenta e surgem oportunidades que dificilmente apareceriam para cada agricultor atuando sozinho.

Esse processo também fortalece a circulação de riqueza dentro do próprio território. O crescimento da atividade movimenta transportadores, prestadores de serviços, unidades de armazenamento, empresas de beneficiamento e diversos outros segmentos que fazem parte da cadeia produtiva. O impacto econômico deixa de ficar restrito às propriedades rurais e alcança toda a região.

Há outro aspecto que considero especialmente relevante. Durante muito tempo criou-se a falsa impressão de que preservar os recursos naturais significava limitar o desenvolvimento econômico. A experiência da piaçava demonstra exatamente o contrário. Quanto maior o aproveitamento responsável de uma matéria-prima renovável, maior também é o interesse em conservar esse patrimônio para que continue gerando trabalho, renda e oportunidades.

Esse entendimento ganha importância em um cenário internacional cada vez mais voltado para a redução das emissões de carbono e para a expansão das fontes renováveis de energia. O Brasil reúne condições excepcionais para ocupar posição de destaque nessa agenda. Temos biodiversidade, capacidade produtiva e um patrimônio de conhecimentos tradicionais que poucos países possuem.

Mas é preciso reconhecer que boa parte desse potencial está distante dos grandes centros. Ele está presente em comunidades rurais que, muitas vezes, permanecem invisíveis nas discussões sobre inovação e desenvolvimento.

A experiência do Baixo Sul da Bahia mostra que a bioeconomia pode crescer sem romper com a história dos territórios. Ao contrário, ela ganha força quando valoriza aquilo que já existe, amplia o aproveitamento dos recursos naturais e cria alternativas para que agricultores familiares participem de cadeias produtivas cada vez mais competitivas.

Tenho convicção de que esse é um caminho sem volta. O desenvolvimento rural do futuro será construído pela capacidade de unir tradição, organização coletiva e inovação. Não para substituir aquilo que as comunidades aprenderam ao longo de décadas, mas para garantir que esse conhecimento continue gerando trabalho, renda e qualidade de vida para as próximas gerações.

 

*Gileno Araújo dos Santos é diretor-executivo da Coopafbasul (Cooperativa de Agricultores Familiares e Economia Solidária do Baixo Sul da Bahia).


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