Foto de Coopafbasul/Reprodução
Cooperativismo
Perfil: Gileno Araújo dos Santos, diretor-executivo da Coopafbasul (Bahia)
Antes de conhecer o cooperativismo como profissão, Gileno dos Santos já conhecia seus valores na prática. Eles estavam presentes na infância vivida na zona rural de Valença, na Bahia, nas dificuldades enfrentadas pela família e, principalmente, na maneira como sua mãe ensinava a dividir o pouco que tinham com quem precisava.
Nascido na comunidade da Serra do Ábia, Gileno viveu com os avós maternos até os sete anos. Depois, mudou-se para a comunidade do Km 02, no entroncamento de Valença, onde passou a viver com a mãe e o padrasto. A família seguia na atividade rural como forma de sobrevivência. Plantava, pescava, produzia e vendia o que fosse possível para colocar comida dentro de casa. Entre uma tarefa e outra, também havia espaço para fazer e vender geladinhos.
A vida era simples e, muitas vezes, difícil. Mas foi justamente naquele cenário que começaram a ser formados alguns dos valores que hoje orientam sua atuação. O avô era, para ele, a imagem do homem trabalhador e honesto. A mãe, uma referência de bondade, simplicidade e amor ao próximo. O padrasto reforçava outra lição que Gileno jamais esqueceu: trabalho e educação podem mudar uma vida.
A agricultura fazia parte da rotina da família. Vieram o cultivo de cacau, banana-da-prata e outras atividades que ajudavam no sustento. Mais tarde, a participação na associação da comunidade abriu novas possibilidades, como o acesso ao Pronaf para financiamento de cultivos de banana-da-terra e café, acompanhado pela assistência técnica da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).
Foi também nesse período que Gileno começou a perceber que o conhecimento poderia ser uma ferramenta tão importante quanto a própria terra.
A escola, no entanto, não foi um caminho fácil. Ele entrou na sala de aula aos dez anos, carregando as limitações de uma infância marcada pela falta de acesso à informação, energia elétrica e alimentação adequada. Mesmo assim, encontrou professores que fizeram diferença. Rosângela e Ilma, como ele lembra, ajudaram a mostrar que era possível avançar apesar das dificuldades.
Aos 15 anos, deixou a comunidade para estudar em Valença. A mudança foi grande. Para um jovem que conhecia pouco da cidade, o contato com uma realidade diferente, inclusive com situações de violência, poderia ter mudado seus planos. Não mudou. Gileno manteve o foco naquilo que havia decidido: estudar e se formar.
A oportunidade de cursar Técnico em Agropecuária na EMARC — Escola Média de Agropecuária Regional da Ceplac — surgiu por indicação de uma prima, Laíse. O curso acabou se tornando um divisor de águas. Filho de agricultor familiar, Gileno havia passado a vida trabalhando no campo, mas agora começava a entender que conhecimento, tecnologia e assistência técnica poderiam transformar a maneira de produzir.
A escola também lhe apresentou outra ideia que faria parte de sua vida dali em diante: o associativismo e o cooperativismo. Nas aulas e nas experiências das cooperativas-escola, participou de atividades de produção e comercialização de hortaliças e ovos. Não era algo totalmente novo para ele. Na infância, já havia acompanhado a participação da família na associação comunitária. Seu pai adotivo, Manoel Ângelo, chegou a presidir a organização.
De certa forma, o cooperativismo já estava presente em sua história antes mesmo de ele saber exatamente onde aquele caminho poderia levá-lo.
Ainda durante a formação técnica, surgiu a primeira experiência profissional ligada diretamente à assistência ao agricultor. Gileno foi selecionado para atuar como bolsista do Ministério do Desenvolvimento Agrário junto aos escritórios da Ceplac. Seu desejo era trabalhar em Ituberá, e foi para lá que seguiu.
Encontrou no escritório uma equipe que o acolheu e, especialmente, o apoio do então chefe Barrachisio, que lhe permitiu ampliar seus conhecimentos e aprender no cotidiano. Vieram a assistência técnica e a extensão rural, a elaboração de projetos, a coleta e análise de solos e a busca por alternativas de produção.
Era a oportunidade de colocar em prática aquilo que havia aprendido e, ao mesmo tempo, devolver ao campo parte do conhecimento que havia recebido.
A trajetória continuou por diferentes instituições. Gileno passou pela Secretaria de Agricultura de Ituberá, trabalhando com associações e assentamentos da reforma agrária; pelo Sindicato dos Produtores Rurais; pelo Senar, como instrutor; e pela EBDA, novamente na extensão rural.
Em todos esses espaços, havia um mesmo ponto de encontro: a agricultura familiar.
Foi nesse ambiente, conhecendo de perto os desafios dos produtores, que percebeu uma dificuldade que ia além da produção. Os agricultores conseguiam plantar, colher e produzir, mas, na hora de vender, estavam submetidos à lógica dos atravessadores. Faltava acesso a mercados mais justos e melhores condições de comercialização.
Em 2009, produtores o convidaram para ajudar a formar uma cooperativa.
Nascia a Coopafbasul.
O projeto começou pequeno, com apenas 20 produtores, mas carregava uma ambição grande: transformar agricultores familiares em protagonistas de seus próprios negócios, preparados para acessar mercados com união, qualidade, seriedade, compromisso e determinação.
Gileno esteve desde o início desse processo. Primeiro, ajudando a organizar a cooperativa e a buscar mercados. Depois, assumindo a função de diretor executivo, posição que ocupa até hoje.
Os desafios foram muitos. Fazer cooperativismo com transparência, buscar melhores preços e romper com uma lógica de comercialização já estabelecida significava enfrentar interesses e resistências. Também era preciso convencer os próprios cooperados de que a união poderia, de fato, mudar a relação deles com o mercado.
Foram anos de construção.
Hoje, olhando para trás, Gileno enxerga uma distância enorme entre aqueles 20 produtores que deram os primeiros passos e a realidade atual da Coopafbasul, que reúne cerca de 3.800 cooperados, movimenta diferentes negócios, participa de processos de exportação e mantém parcerias que ampliam as oportunidades para a agricultura familiar.
Mas os números, embora importantes, não parecem ser a parte que mais o emociona.
O que fala mais alto é a possibilidade de transformar vidas.
Para Gileno, o cooperativismo reúne diferentes elos de uma região marcada pela diversidade. No Baixo Sul da Bahia, são inúmeras culturas e atividades, da pupunha à seringueira, passando pelas frutas e pelo extrativismo. Há uma riqueza enorme no território. O desafio, em sua visão, é fazer com que essa riqueza seja distribuída de maneira mais justa entre aqueles que vivem dela.
É por isso que ele trata o cooperativismo quase como uma missão. A expressão aparece em sua fala quando lembra de sua infância, da mãe que ensinava a cuidar dos outros e do sonho que carrega desde muito cedo de contribuir com as pessoas.
A fé também ocupa um lugar importante nessa trajetória. Gileno acredita que sua caminhada foi conduzida por Deus e reconhece que jamais imaginaria, quando entrou na escola aos dez anos, que um dia estaria à frente de um empreendimento capaz de reunir milhares de famílias e movimentar negócios em diferentes mercados.
Por trás do diretor executivo, permanece o menino da zona rural que aprendeu com a mãe que ajudar o outro não depende de ter muito. É possível dividir o que se tem — comida, roupa, conhecimento, tempo — e fazer a diferença.
Talvez seja essa a linha que une todas as fases de sua vida.
O menino que ajudava a cuidar dos irmãos mais novos tornou-se o técnico que queria levar conhecimento aos agricultores. O jovem que aprendeu a produzir e vender passou a ajudar produtores a encontrar mercados. E o filho de agricultor familiar tornou-se dirigente de uma cooperativa que hoje representa milhares de famílias.
Gileno diz que vive o cooperativismo 24 horas por dia. E, para ele, isso não significa apenas trabalhar muito. Significa levar para casa os mesmos princípios que procura praticar no ambiente profissional: verdade, honestidade, compromisso, amor ao próximo e responsabilidade coletiva.
É também o que procura transmitir aos filhos. Mostrar, pelo exemplo, que fazer o bem, olhar para quem está ao lado e trabalhar por algo que beneficia mais pessoas vale a pena.
Quando fala sobre o futuro, sua preocupação não é apenas com o crescimento da Coopafbasul. Ele quer fortalecer parcerias, criar novos negócios, gerar empregos e ampliar as oportunidades para os agricultores familiares. Mais do que deixar uma organização maior, deseja ajudar a formar pessoas capazes de dar continuidade a um jeito de fazer negócios baseado na confiança, na união e na solidariedade.
Depois de quase duas décadas de caminhada, Gileno continua olhando para o cooperativismo com a mesma disposição de quem ainda tem muito a construir.
Sua mensagem para quem está começando nasce da própria experiência: em uma sociedade cada vez mais individualista, cooperar é escolher um caminho diferente. É entender que a força de um projeto pode estar justamente na capacidade de juntar pessoas, dividir responsabilidades e construir resultados que ninguém conseguiria alcançar sozinho.
No campo onde aprendeu as primeiras lições, Gileno descobriu que a transformação começa com trabalho. No cooperativismo, encontrou uma maneira de fazer esse trabalho alcançar muito mais gente.
Juntos, acredita ele, somos mais fortes.
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